quarta-feira, 18 de maio de 2022

Como foi o último dia de Chris Cornell?


Chris possuía histórico de depressão e alcoolismo tirou a própria vida em 18 de maio de 2017, aos 52 anos.

Depois do show, que teve abertura da banda The Pretty Reckless, por volta de 1h da manhã, policiais atenderam a um chamado sobre um aparente suicídio no hotel MGM Grand.

Ao chegarem, encontraram Cornell, 52 anos, no chão do banheiro de seu quarto, com uma faixa para exercícios em volta do pescoço. O cantor foi declarado morto no local. No dia seguinte, a causa da morte foi confirmada: suicídio por enforcamento.


Uma velha conhecida

Não foram poucas as vezes em que Chris Cornell expôs sua luta contra o monstro invisível chamado depressão. Em entrevista a Mike Zimmerman, da Men’s Health, reproduzida no livro “Chris Cornell: A Biografia”, publicado no Brasil pela editora Estética Torta, ele disse:

“Creio que sempre tive um pé nesse mundo de trevas, solitário e distante. Quando você fica deprimido por muito tempo, começa a sentir certo bem-estar; é um estado de espírito com o qual você vai entrando num acordo por estar nele há tanto tempo. É um mundo muito egoísta.”



Da mesma forma, muitas de suas letras mais famosas deram dicas de que o trágico desfecho que escolheu para si não deveria ser encarado com tanta surpresa ou incredulidade. Na sombria “Fell on Black Days”, uma das mais famosas do Soundgarden, por exemplo, o cantor buscou capturar a sensação de se sentir péssimo sem nenhum motivo aparente. A Everett True, do Melody Maker, em outra entrevista reproduzida em “Chris Cornell: A Biografia”, o cantor explicou:

“Você está feliz com sua vida, tudo vai bem, as coisas estão animadoras, quando, de repente, percebe que está infeliz ao extremo, a ponto de ficar muito, muito assustado. Não há nenhum gatilho em particular; um belo dia você apenas conclui que tudo na sua vida é uma merda.”




A isso tudo se junta a batalha que Chris travava contra o alcoolismo, doença que frequentemente contribuía para a demora nos processos de gravação e divulgação de seus trabalhos e o tirava do estado de espírito adequado para fazer música. À revista Lollipop, em setembro de 2007, ele exemplificou isso:

“Eu estava na pior durante o ‘Euphoria Morning’ [seu primeiro álbum solo, lançado em 1999]. Foi o fundo do poço. Eu estava péssimo. Levei seis vezes mais tempo do que o normal pra terminar o disco. Eu não compunha bêbado – nunca consegui fazer isso –, mas na maioria das vezes levaria dias inteiros pra curar a ressaca pra poder trabalhar. Quando eu estava no estúdio pra gravar [a música] ‘Preaching the End of the World’, literalmente passei mais da metade do dia apenas esperando que a cabeça parasse de doer.

O caminho rumo a Detroit

O Soundgarden já não se apresentava há dois anos quando o supracitado giro foi anunciado. Chris e seus colegas — Kim Thayil (guitarra), Ben Shepherd (baixo) e Matt Cameron (bateria) — encararam a temporada de shows como uma oportunidade de se reconectar com os fãs, já ansiosos pelo álbum que sucederia o elogiado “King Animal”. Sabe-se que a banda vinha trabalhando constantemente em material inédito.

Paralelo a isso, Cornell manteve-se ocupado: além do lançamento de “Higher Truth” (2015), o cantor tomou parte em eventos hoje lembrados como históricos, como o show que o Audioslave realizou em protesto à posse de Donald Trump como Presidente dos Estados Unidos em 20 de janeiro de 2017.

A Emmy Mack, do Music Feeds, o guitarrista Tom Morello recordou:

“A última coisa que Chris me disse foi: ‘Eu me diverti muito. Adoraria fazer isso de novo. É só falar’.”

A turnê estadunidense do Soundgarden teve início em 28 de abril, na Flórida. Foram mais onze shows até a derradeira noite em Detroit.

Desfecho em tom premonitório

Por volta das 21h, o Soundgarden subiu ao palco do Fox Theatre. Com sua guitarra Gretsch semiacústica preta em punho, Chris tocou alguns acordes enquanto Matt abriu a contagem para “Ugly Truth”, a primeira das vinte músicas do repertório previsto para a noite. A energia do público contagiou o vocalista, que a certa altura brincou: “Me sinto mal pela próxima cidade”.


Encerrado o set principal com “Jesus Christ Pose”, o Soundgarden volta ao palco para o bis com “Rusty Cage” e “Slaves & Bulldozers”. No meio desta última, que tradicionalmente confere o ponto-final às apresentações da banda, Cornell improvisou alguns versos de “In My Time of Dying”, canção tradicional imortalizada nos anais do rock em versão matadora do Led Zeppelin lançada em “Physical Grafitti” (1975).

“In my time of dying”, proclama ele, “I ain’t gonna cry and I ain’t gonna moan/All I need for you to do is drag my body home”. Em bom português: Na hora de minha morte, não vou chorar nem me queixar. Tudo o que eu quero é que você leve meu corpo para casa”.

Pouco menos de duas horas após o início da apresentação, o arremate vem na forma de uma promessa que jamais será cumprida: “Detroit! Obrigado! Nos veremos em breve!”

As duas horas finais de Chris Cornell



Eram cerca de 23h quando Chris, acompanhado de seu guarda-costas pessoal, Martin Kirsten, seguiu num carro, com escolta policial, até o hotel MGM Grand, no qual estava hospedado. Seu quarto era o 1136.

Pouco depois da meia-noite, Kirsten recebeu um telefonema da esposa de Chris, Vicky Cornell. De acordo com ela, Chris a acordou ligando e desligando as luzes de sua casa remotamente. Ela ficou alarmada e ligou para ele.

“Percebi que ele estava embolando as palavras; estava diferente. Eu falei: ‘Você precisa me dizer o que tomou’, e ele ficou p*to.”


Nervosa porque depois disso Chris não mais atendia o telefone, Vicky disse ao guarda-costas para ir até o quarto do cantor e ver se estava tudo bem. Kirsten arrombou a porta do quarto e percebeu que a do banheiro estava entreaberta. Tudo que conseguia ver era um par de pés.

Olhando mais fundo, viu que Chris havia amarrado uma faixa vermelha para exercícios em volta do pescoço. A outra extremidade estava presa com um mosquetão na parte superior da porta do banheiro. Ele desamarrou a faixa. Chris não estava respirando. Imediatamente o guarda-costas começou a realizar a RCP, mas sem sucesso.

Por volta de 1h da manhã, os paramédicos finalmente chegaram e iniciaram os protocolos de salvamento. Por meia hora tentaram reanimar Chris. À 1h30, o médico no local declarou o óbito.


O relatório da autópsia

Várias substâncias foram encontradas no organismo de Chris Cornell durante a autópsia, incluindo butalbital, um barbitúrico, um descongestionante chamado pseudoefedrina, bem como seu metabólito não pseudoefedrina, cafeína e naloxona, um antiopioide utilizado por profissionais médicos em situações de overdose. Os legistas também detectaram a presença de 41 ng/ml de lorazepam, um ansiolítico.

Com base nas circunstâncias acerca da morte e do que foi encontrado na autópsia, o legista confirmou que nenhuma das substâncias encontradas nele contribuiu para a morte.

Ao Detroit News, Vicky Cornell chamou o laudo de “completamente enganoso”:


“Perdi meu marido. Meus filhos perderam o pai. Estamos sofrendo muito e ainda temos que lidar com esse monte de gente atrás de nós. Se o laudo da autópsia fosse completo, acredito que parte disso poderia estar sendo evitada.”


Sepultamento e prenúncio de nova tragédia



O corpo de Chris Cornell foi cremado em uma cerimônia privada, no dia 23 de maio, em Los Angeles. Sua esposa, Vicky, estava lá. Também estavam presentes seu irmão Peter, o cantor J. D. King e Linda Ramone, viúva de Johnny Ramone, amigo pessoal de Cornell morto em 2004. Suas cinzas foram sepultadas no Hollywood Forever, a poucos metros da lápide do guitarrista dos Ramones.

No momento mais comovente do enterro, Chester Bennington, vocalista do Linkin Park, acompanhado por seu colega de banda Brad Delson, cantou uma angustiante versão da música “Hallelujah”, que Jeff Buckley, outro amigo de Chris que partiu cedo demais, havia tornado famosa.



igormiranda.com

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